Meu bebê vai engasgar com o BLW?

“Quando uma criança começa a comer, engasga. É algo inevitável, igual quando começa a caminhar e cai de bunda”.

Carlos González

Quando optamos pelo BLW, um dos grandes fantasmas que enfrentamos é o medo do engasgo. É natural essa preocupação, mas é verdade que pouco conhecemos sobre o funcionamento da mastigação e sem saber nos assustamos com mecanismos que são naturais, não sabemos diferenciar um reflexo gag de um engasgo.

O risco de engasgo com o sólido existe, como também pode acontecer com a papinha e os líquidos. Mas se o bebê controla toda a comida que entra em sua boca e está sentado com as costas retas, o fato de comer sozinho não aumenta a probabilidade de engasgo em comparação com bebês que comem com a colher; na verdade ele até diminui. Essa é a opinião de Gill Rapley, autora do livro Baby Led Weaning – Helping Your Baby to Love Good Food, que descreve o método.

Nara aos 7 meses comendo caqui.

Nara aos 7 meses comendo caqui.

A diferença entre o reflexo gag e o engasgo

Quando pressionamos o dedo no fundo da boca, naturalmente acionamos um reflexo protetor chamado “reflexo gag” (gag reflex, em inglês). Parecido com a ânsia de vômito, esse reflexo serve para proteger as vias aéreas, expulsando objetos estranhos que não estejam sendo deglutidos corretamente ou que sejam muito grandes. Uma vez acionado, o reflexo provoca movimentos musculares involuntários repetitivos que devolvem o objeto para a frente da boca, onde ele pode ser cuspido ou mastigado novamente. Ou seja, o reflexo gag é um mecanismo fisiológico do corpo que impede o objeto de entrar na via aérea, ajudando a prevenir o engasgo. Pode até acontecer de o bebê vomitar um pouco, mas geralmente eles não se alteram muito com o ocorrido e voltam a comer normalmente, como se nada tivesse acontecido.

No caso dos bebês, o ponto da língua que aciona o reflexo gag é anteriorizado em relação aos adultos e esse é um dos motivos pelos quais o bebê tem muitos gags durante a introdução alimentar. Como não conhecemos esse mecanismo, nos assustamos achando que o bebê está começando a ter um engasgo cada vez que ele tem um reflexo gag. Apesar de aflitivo de assistir (depois de um tempo nos acostumamos e eles também diminuem de frequência), saiba que o gag é nosso aliado e um sinal de que os reflexos fisiológicos normais do bebê estão presentes e ajudando o bebê a se proteger de forma instintiva e natural enquanto ele aprende a lidar com os sólidos.

👆 Atenção! Para os gags funcionarem bem é importante o bebê ter controle do que leva à boca e que esteja sentado bem ereto.

No livro Baby Led Weaning, Gill Rapley explica que é super importante o bebê ter o controle do que leva à boca, que isso diminui os riscos de engasgo. Quando o bebê é alimentado por outra pessoa, é comum o cuidador colocar a colher dentro de sua boca, ainda que ele não tenha a intenção de capturar o alimento da colher. Com isso, a papinha pode ser direcionada para o fundo da boca sem aviso, o que pode provocar o engasgo.

O mesmo pode acontecer com os líquidos. Como eles escorrem rápido para o fundo da boca, não há tempo de o gag ser ativado e o líquido “desce pelo lugar errado”.

Já o engasgo acontece quando as vias respiratórias ficam parcial ou totalmente bloqueadas. Quando acontece o bloqueio parcial, o bebê começa a tossir automaticamente e na maioria das vezes consegue liberar a via aérea. Se o bloqueio é total, o bebê não consegue tossir, emitir sons ou chorar. Ele pode mudar de cor, arregalar os olhos, agitar as pernas e os braços freneticamente. Nesse caso, é preciso intervir com manobras de primeiros socorros para livrar o bebê do objeto que o impede de respirar.

O que fazer em caso de reflexo gag

👆 Antes de tudo, veja vídeos no Youtube ou no Instagram para se familiarizar com o gag e saber reconhecê-lo. Na hashtag #blwreflexodegag você pode ver alguns exemplos de gags.

No primeiro minuto do vídeo, o bebê tem duas arcadas, volta a comer como se nada tivesse acontecido e a mãe permanece tranquila o tempo todo. Não há nada de alarmante, tudo o que acontece é absolutamente normal, ele consegue expulsar o alimento grande ou mal mastigado.

👆 Quando estiver alimentando seu bebê e presenciar um gag, mantenha a calma e observe a situação. Eles vão acontecer e são absolutamente normais. Confie no seu bebê, espere alguns segundos para ver se ele consegue trazer o alimento para a frente da boca e cuspir. Um gag normal, eficiente, que faz parte do processo de aprendizagem do bebê, dura em média 2-15 segundos. No máximo, pode ser que depois disso o bebê vomite por excesso de ânsia. Não se assuste, o vômito é um esforço final para eliminar algo que ficou preso no caminho e que não pôde ser liberado com o gag. O mais normal é que a criança volte a comer em seguida como se nada tivesse acontecido, mas é importante o adulto transmitir confiança e tranquilidade na situação.

👆 Não enfie o dedo na boca do bebê a toda hora que ele colocar um pedaço grande na boca. Ele está aprendendo a cuspir e a morder pedaços menores, mas isso só vai acontecer se você der oportunidade para ele praticar. Ele vai aprender naturalmente por meio dos gags, da mastigação por amassamento com as gengivas e da aquisição de movimentos finos com a língua.

👆 Se achar necessário, peça para alguma mãe que já aplicou o método te acompanhar em alguma refeição para te ajudar a identificar os gags e te deixar mais tranquila.

👆 Se o gag durar mais de 15 segundos, interfira com a manobra de Heimlich.
O que fazer em caso de engasgo

👆 Se o bebê engasgou e estiver tossindo forte, observe, dê a ele alguns segundos para recuperar-se. A tosse é um reflexo de proteção e sua presença indica passagem de ar e a possibilidade de desobstrução de vias aéreas sem a necessidade de realizar nenhuma intervenção externa.

👆 Durante o engasgo, não dê água ou bata nas costas, pode piorar a situação.

👆 Se o bebê estiver com dificuldade aparente (não consegue tossir, respirar, emitir sons, chorar, tem os olhos arregalados, vermelhidão no rosto, agitação das pernas e braços), isso indica que há obstrução total das vias aéreas, o que é muito mais grave, já que pode evoluir para um quadro de asfixia e parada cardiorrespiratória. Se você estiver vendo o alimento dentro da boca, você pode tentar retirar com o dedo. Caso você não esteja vendo o alimento, em hipótese nenhuma enfie o seu dedo na boca do bebê, caso contrário você pode empurrar o alimento para as vias aéreas. A manobra de Heimlich já é indicada. Tire o bebê da cadeira e proceda com a técnica.

👆 Se tiver dúvida, aja! Engasgos deste tipo são mais raros, mas podem acontecer.

É importante ressaltar que quando tomamos todas as medidas de precaução e alimentamos o bebê com escolhas responsáveis, o risco de engasgo é muito baixo. No entanto temos que saber reconhecer seus sinais e não achar que o reflexo gag pode resolver tudo, pois isso pode expor o bebê a riscos.

O engasgo pode ser prevenido e são as escolhas do adulto que vão diminuir a exposição do bebê a riscos. É fundamental seguir algumas recomendações:

👆 Mantenha o bebê bem sentado e ereto durante a refeição, é dessa forma que ele poderá acionar todos os reflexos de proteção necessários de forma eficaz. Não o alimente quanto ele engatinha, brinca, anda, etc.

👆 Sempre acompanhe o bebê durante as refeições, pois assim você poderá agir para ajuda-lo caso necessário;

👆 Não distraia o bebê, é importante ele se concentrar no que está fazendo.

👆 Não apresse o bebê, deixe-o à vontade para mastigar e engolir no seu tempo.

👆 Cuidado com crianças mais velhas, oriente-as para que não ofereçam comida aos bebês, pois muitas vezes o pedaço delas pode ser perigoso para eles.

👆 Fique atento à forma de apresentação dos alimentos. Este será o tema do próximo post.

Seguindo tudo isso, pode-se praticar o BLW de forma leve e prazerosa.

Fontes:
– blog Tá Na Hora do Papá
– livro Baby Led Weaning – Helping Your Baby to Love Good Food, de Gill Rapley

2 Comentários para "Meu bebê vai engasgar com o BLW?"

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