Conhece o Zum Zum de Mães? Entrevista com Clarissa Yakiara

Então você leu muito sobre Criação com Apego, Disciplina Positiva, Maternagem Consciente e acha toda teoria sobre essas linhas bonitas mas difíceis de aplicar na prática? Já se sentiu culpada por ter perdido a paciência com seu filho mesmo sabendo que ele não estava fazendo nada além de “ser bebê” ou “ser criança”? Se sente frustrada por que não consegue conectar de verdade com seu filho em diversos momentos ou tem dificuldade para entender suas necessidades? Se sente culpada porque tem horas que precisa desconectar da criança mas sabe que ela ainda te necessita?

A maternidade chega cheia de expectativas, idealizamos seguir um estilo de criação, acreditamos que se seguimos uma linha isso moldará a personalidade do nosso filho e evitará “certos comportamentos”. Mas no fim é tudo muito mais complexo e fora de controle, a criança chega revelando muitos aspectos do nosso mundo interior, dando-nos a oportunidade de descobrir questões que estavam guardadas e adormecidas, mas que nos descolocam. São tantas mudanças e emoções remexidas que o apoio às mães nessa fase se torna fundamental.

Já faz um tempo que eu acompanho com admiração o trabalho da Clarissa Yakiara. Psicóloga, formada em Pedagogia Waldorf, Clarissa é mãe de dois meninos (João Gabriel, de 2008, e Lucas, de 2008) e criadora da Bee Family, uma plataforma online que ajuda pais e mães que querem educar seus filhos a partir do processo de autoeducação.

Essa semana Clarissa lançará um workshop gratuito online chamado A Comunicação Mãe e Filho como Caminho de Cura e Liberação. Com 4 vídeo aulas, o workshop está recomendado a mães, pais, educadores e profissionais interessados em Educação Infantil. Clarissa falará de como a comunicação responsável com a criança pode apoiar mães a se libertarem da culpa, raiva, estresse e sofrimento e indicará um caminho poderoso de conexão, respeito e paz com as crianças e consigo mesmo.

Após o workshop, Clarissa abrirá vagas para a 4a turma do Zum Zum de Mães, uma rede de apoio materno, um espaço para mães falarem sobre angústias, desafios e também sobre todas as delícias e alegrias que acontecem na maternidade. Tudo isso com muito acolhimento e escuta, sem que haja críticas ou julgamentos. Para mães que estão realmente decididas a dar um passo nesse processo de auto educação e crescimento pessoal a partir dessa grande oportunidade que é a relação com nossos filhos.

O Zum Zum de Mães já teve participação de mais de 300 mães e vai abrir a 4a turma em abril, logo depois do workshop online gratuito.

Para conhecer um pouco mais a Clarissa e entender a proposta do Zum Zum de Mães, fiz uma entrevista com ela. Quem tiver interesse em se inscrever no workshop pode clicar aqui.

1) Acompanho e admiro seu trabalho já há algum tempo, mas acredito que muitas mães que estão lendo esta entrevista ainda não te conhecem. Você pode contar para elas o que é o Zum Zum de Mães e como ele surgiu?

O Zum Zum é meu terceiro programa online, antes dele eu gravei o Limite na Medida Certa e o Pais Conscientes, Crianças Felizes, isso tudo antes do meu segundo filho. Quando meu segundo filho estava por volta de 7 meses, enquanto eu estava vivendo o auge do puerpério e de vários desafios da relação com ele, senti uma vontade muito grande de estar com outras mães. Mais do que para trabalhar qualquer coisa, pra explicar, para ensinar, era para estar junto com outras mães trocando, me escutando, escutando a elas, buscando um lugar para ser escutada mesmo. Aí eu escrevi para algumas clientes e na época 8 toparam. Eu me uni com elas e fizemos 6 encontros presenciais e quinzenais, cada um com um tema e eu os conduzia. Eles eram um espaço de escuta e acolhimento. Foi tão legal, profundo e transformador o que vivemos ali que decidi que tinha que levar isso para mais mães. Aí resolvi criar o Zum Zum de Mães online.

O Zum Zum é uma rede de apoio materno, um espaço pra gente falar sobre nossas angústias, desafios, sobre também todas as delícias, alegrias, as coisas bacanas que acontecem na maternidade. Pra gente falar do lado A e do lado B, sendo um espaço de acolhimento e escuta, onde não vamos ser julgadas ou criticadas.

O Zum Zum de Mães é um curso com duração de 3 meses, cada mês tem um módulo. Em cada módulo a pessoa recebe um vídeo semanal de 15 a 20 minutos, tem acesso a uma conferência com o tema do módulo e um encontro de perguntas e respostas ao vivo. Nele podem ser compartilhadas e trabalhadas as questões que estão ressoando dentro depois de ter escutado o material do módulo, questões que foram praticadas e vivenciadas, e a partir daí vamos buscar possibilidades.

Além do curso, a pessoa tem acesso a um grupo do Facebook secreto, em que a gente troca bastante informação e compartilha nossas angústias. Uma das coisas que surgiu nesse terceiro grupo foi uma sugestão que eu dei às mães de formarem duplas de escuta, para elas se escutarem e trocarem de uma forma mais íntima, para se aprofundarem nos processos. É uma escuta bem aberta, se minha dupla precisa que eu a escute ou vou escutá-la sem julgamento, sem intervenções, só para escutar. E ela naquela escuta aberta talvez consiga organizar o que ela está vivenciando.

 

2) Quais são as linhas e os autores que te inspiram?

As linhas que me inspiram são um mix, não tem uma específica. Tem a psicologia junguiana, a sistêmica e a transpessoal. Autores que venho estudando e me aprofundando são a Laura Gutman, o pediatra Dr. Carlos Gonzalez, o trabalho The Work da Byron Kate, o trabalho da Patty Wipfler, do Hand in Hand Parenting, Osho e Rudolf Steiner, da pedagogia Waldorf.

 

3) No seu livro Limite na Medida Certa, você afirma que educar é uma grande oportunidade de educar a si mesma e que a auto observação é indispensável para a construção de uma relação amorosa, coerente e respeitosa com as crianças. No entanto, nem todas nós estamos dispostas a olhar para dentro tão a fundo, talvez porque isso nos coloque em contato com nossa criança interior e abra feridas. Como lidar com essa limitação? Esse mergulho é mesmo necessário? A maternidade pode nos ajudar nesse processo?

Muitas mães não estão dispostas mesmo a se olharem, sinto que isso é uma realidade e ok, não tem um certo ou errado. Mas sinto que talvez o que elas possam vivenciar seja uma relação mais superficial, no sentido de que elas vão buscar se relacionar com essa criança não desde o que está dentro delas, mas desde discursos que vêm de fora. Desde uma linha teórica, desde o que o pediatra diz, o psicólogo ou da forma como foram educadas e ensinadas por suas mães sobre o que é certo. Eu sinto que a educação vai vir desse espaço.

Mesmo que eu esteja disposta a fazer esse mergulho, às vezes não é suficiente só ter vontade de mergulhar e de me aprofundar e de me observar e de descobrir. Porque é um mergulho que vai realmente me levar de encontro a feridas, dores e situações que talvez eu não tinha tanta consciência, que eu releguei para a minha sombra, que estavam aí nesse inconsciente e nessa sombra e vieram à tona nesse processo da maternidade.

Eu vejo a maternidade como um “momento de crise” no sentido de haver uma ruptura desse inconsciente em que muita coisa que estava lá dentro vem à tona e que a gente nunca colocou muita atenção. A gente pode fugir disso e continuar vivendo, sobrevivendo de alguma forma, ou a gente pode parar e olhar para isso. E quando eu escolho dar esse mergulho, é um processo que nem sempre eu dou conta de fazer sozinha.

Como é um processo doloroso, de sombra, de inconsciente, em que estou muito identificada, às vezes eu preciso de uma rede de apoio e do apoio de um profissional. E pra ter um trabalho mais profundo, acho que um profissional é fundamental.

A maternidade nos ajuda no sentido em que ela é um desses momentos de crise da nossa vida que vai permitir que essa sombra se revele e venha com intensidade à tona. Mas ela é um desses momentos, às vezes uma doença, a perda de um ente querido e vários outros processos de crise vão me colocar nesse espaço. É como se esta organização, que a Laura Gutman vai chamar de personagem, é como se este personagem que eu usei para sobreviver a minha vida inteira estivesse perdido diante daquilo tudo sem saber o que fazer, ele não está mais tão organizado e por isso eu consigo ver esse conteúdo, esta sombra que vem à tona e eu posso escolher se eu quero lidar com aquilo ou não.

E não é só uma questão de vontade ou de escolha. Às vezes eu tenho vontade, mas é tão doloroso e não tenho força o suficiente para buscar ajuda. Então a maternidade pode ajudar nesse processo sim, mas vai depender também desse meu movimento e dos caminhos que eu vou buscar.

 

4) Muitas mães da nossa geração parecem estar dispostas a quebrar com o estilo de educação autoritária que recebemos. No entanto, são tantas marcas e crenças limitantes que trazemos da infância que construir uma relação com nossos filhos com base no amor e respeito mútuos, tal como você sugere ser possível no seu livro, torna-se uma exigência que nos pressiona. Acabamos sentindo uma culpa enorme cada vez que reagimos com agressividade ou impaciência em momentos que sabemos que temos que transmitir amor, compreensão e acolhimento, por exemplo.

É possível maternar com leveza, sem essa pressão interna? Como podemos relaxar e curtir mais a maternidade nesse sentido?

É possível sim maternar e acho que você tem toda a razão quando fala do: “eu tenho que” e se torna mais um “tenho que” e aquilo gera mais uma culpa, mais uma pressão para as mães que já estão extremamente pressionadas por um excesso de informação, por um sistema que quer nos controlar de alguma maneira.

Eu sinto que é possível, mas além da vontade dessa mãe, ela precisa talvez buscar um trabalho que realmente vá apoiá-la a entender o que se passou lá trás, a desconstruir esse sistema de crenças, a desconstruir esse padrão. É entrar em contato com a dor dessa criança porque senão ela segue repetindo isso nas relações.

Como você mesma disse, é uma desconstrução de um padrão que vem acompanhando a gente faz muito tempo, que está dentro de um sistema que fomos educados e que está arraigado dentro do nosso ser e dos nossos ancestrais. Então isso tem uma força e um peso muito grande. Não dá pra ficar no: eu quero, eu li uma meia dúzia de livros e eu consigo. É um processo que precisa de um comprometimento, de uma rede de apoio de pessoas que estão dispostas, às vezes de um profissional, de um trabalho terapêutico, de um trabalho individual às vezes mais profundo. Eu sinto que é possível, mas que a gente precisa entrar com tudo nisso.

E sinto que pra gente relaxar e curtir mais a maternidade a gente precisa de apoio. Não significa que eu vou “terceirizar a educação” do meu filho, mas vou precisar me cercar de mulheres que também estão vivenciando estes processos, eu preciso de um espaço em que eu possa falar, me expressar e me sinta escutada verdadeiramente. Eu preciso estar mais em contato com a natureza, observando o que é mais natural, ter espaços de silêncio e tranquilidade, de contato com a minha criança interior e me deixar me entregar nesse brincar com as crianças, nessa vivencia de resgatar a minha criança, olhar pra ela e acolher como adulto.

Não é nada muito mecânico, não tem uma fórmula para relaxar e curtir a maternidade, é um processo profundo de autoconhecimento, onde eu preciso ir lá nas dores dessa criança para eu ressingnificar essa criança que eu fui e conseguir vivenciar tudo isso que o meu filho vai trazer à tona e é da minha criança interior, que vai acessar as feridas da minha criança. Eu preciso cuidar minimamente dessas feridas para ter uma realidade emocional saudável para eu conseguir atender as necessidades dos meus filhos e vivenciar a maternidade dessa forma leve, tranquila, relaxada que eu compartilho no curso.

 

5) Uma das mensagens mais lindas que seu livro me trouxe e que me ajudou muito foi a ideia de encarar os desafios com nossos filhos como oportunidades de aprendizado capazes de nos levar ao crescimento e evolução, tanto deles como nosso. Acompanhei algumas crises fortes de birra da Nara tendo como norte os passos que você sugeria no livro e posso afirmar que depois de todo o furacão vivido senti uma paz enorme. Foi super intenso reconhecer e lidar com todas as emoções que o comportamento dela me despertava e ainda assim continuar sendo acolhedora, compreensiva e amorosa. Depois de tudo eu sentia como se tivesse acolhido minha criança interior ferida junto com minha filha.

É disso que se trata a proposta do workshop que você vai lançar sobre a Comunicação entre Mãe e Filho como um Caminho de Cura e Libertação? Você pode nos contar um pouco sobre ele?

Eu sinto que você foi exatamente no ponto, é exatamente isso. Como a gente pode acolher a nossa criança, porque ela vai, de alguma forma, vir a tona com força quando a gente tem uma criança, é como se a gente acessasse grande parte dessas feridas.

não é só uma questão de o que eu tenho que fazer com meu filho ou o passo a passo. É mais um “peraí, deixa eu ver o que é meu, deixa eu cuidar do que é meu, deixa eu tentar me erguer emocionalmente”, porque muitos de nós estamos vivendo uma realidade emocional extremamente imatura e precisamos entra em contato com isso, organizar isso, pra gente poder realmente conseguir perceber quais são as necessidades dos nossos filhos.

Então contando um pouco sobre o workshop, eu ministrei ele em outubro do ano passado e mais de 20 mil pessoas assistiram. Agora vamos relançá-lo com várias surpresas maravilhosas, inclusive uma entrevista com a Laura Gutman, uma das minhas inspirações que eu te falei no início.

Ele vai ser um workshop onde eu vou trabalhar os 4 passos dessa comunicação a partir de uma vivência que eu tive com o meu filho mais novo, o Lucas, que me deixou muito claro e trouxe pra mim de uma forma muito tangível o poder dessa comunicação da mãe com o filho. Do quão poderosa a gente é e do quanto a gente está conectada com o que está acontecendo aqui dentro. E a gente assume a responsabilidade por isso quando é capaz de liberar os nossos filhos de um sofrimento que, por amor, eles estavam ali absorvendo e nos mostrando.

No workshop eu vou trabalhar esses 4 passos, que são os 4 passos básicos do trabalho da Bee Family, que é observação, auto observação, comunicação e ação. Eu entro profundo nesses 4 passos durante o workshop e no final dele eu abro as inscrições pro curso Zum Zum de Mães para as pessoas que estão realmente decididas a dar um passo nesse processo de auto educação, crescimento pessoal a partir dessa grande oportunidade que é a relação com nossos filhos.

Como eu disse lá no inicio, a maternidade é essa grande oportunidade, eu posso olhar como uma grande oportunidade ou como algo extremamente difícil e ruim, mas é uma grande oportunidade de a gente se deparar com algo que a gente foi deixando pra baixo do tapete durante muitos anos e a vida, de uma maneira muito sábia, com esse filho, com esse espelho fiel que a gente recebe, nos dá essa oportunidade de a gente se ver aí, de a gente crescer junto com essa criança.

Para as mães que estão decididas, a gente abre as inscrições depois do workshop gratuito para o curso Zum Zum de Mães, se quiserem se unir a essa rede de apoio.

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